quinta-feira, agosto 31

Narrativa a meias (nº ?)

Agendei o Armagedão para Agosto e tu disseste:

Redescobri-te hoje e ainda é Agosto. O armagedão por fim começou.

Vejo ovnis deitados de olhos fechados a desfalecerem-me nos ouvidos, e a ti, agarrada a um desejo cavernoso ao sabor de um ódio qualquer. E a ti, de pé e sem braços para te dizer: se quiseres, dá-me a mão para te sentires mais segura. E a ti, sem olhos para me olhares num gesto cúmplice, ou para me olhares disfarçadamente... não vás sentir que gostas de mim. Sim, a ti, perigosa veia de mistérios terríveis, a ti e mais a tua determinada sobriedade para perceber esta tola destruição. Esqueci o teu nome, e sabia-te apenas dentro de uma pequena sensação a que os outros chamam de amor eterno. Tu estás completamente irreconhecível! Se te dissesse que te conheço, tu irias coser a tua boca para nem me responderes. Terrível é também este nevoeiro, consegues ver alguma coisa? O mundo cai em pedaços. E isso é só o q eu entendo, e até pouco importa, hoje, no fim de agosto, tudo explode. Que raio é isto? Saberás tu as respostas? O teu ódio não poupa a minha ignorância, silêncio!!! Não há pessoas à volta, elas bem existem, mas perderam identidade e hoje não têm rosto para mostrarem um sorriso, e se pensarmos bem, para quem havemos mesmo de sorrir? Tu, quando sorriste, agora sorriste, e não me digas por gestos que não, sorrias o quê? Olhas o mundo em vão, olhas segura de que esta coisa está mesmo perdida, o mundo, três palmos atrevidos de malvadez profunda a dizimar compaixão... quem me dera saber que nem tudo está perdido. Tu sabes o que nem por isso está perdido, não sabes? Os teus olhos dizem tão pouco. Vejo ovnis a dormir um sono estúpido de indiferença, raios os partam! E este armagedão até tem nome de uma causa que à nascença cresceu em vão. Mas que culpa temos nós, meu amor? E porque não deixas os teus braços crescer? À volta de um raio de cem metros os ácaros alimentam-se de coisas que eu desconheço, e entre esse espaço há tanta coisa desconhecida. Por exemplo, as árvores ganharam novas cores e as pessoas fogem como doidas, sei lá do quê. O teu coração já se pintou de negro? Não creio. Tu nem para trás vês incertezas, e isso é digno de um triunfador fatal. A beleza cresce-te sem que tu tenhas que convencer alguém disso. E perceber esta coisa?

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Desconfio que não levas o armagedão a sério. Amor? Quem te vendeu essa palavra sem sentido e que te pretende corromper neste que é o dia em que odiamos todos? Não, não tenho braços. Caíram-me apodrecidos pelos abraços ao nada. O nada parece ser inofensivo mas engana bem no seu vazio. Depois de o abraçares, suga-te tudo o que possas ter numa procura de se preencher. Aí ficas tu o nada que ele era. Levou-me os braços, pois não os tinha e queria abraçar-se a si mesmo nas noites frias.
O sorriso que porventura viste nos meus lábios era apenas um esgar, um pedaço de sarcasmo que ainda me ficou. Olho-te e repito: não levas o armagedão a sério. Tens uma esperança qualquer escondida no teu peito e as tuas palavras voam tentando lembrar-me dos tempos em que havia poemas.
Palavras. Mesmo escritas são nada. Símbolos desenhados num qualquer papel, palavras que esqueces logo a seguir.
Chegou o fim de Agosto e é tempo de fazer arder as casas, pisar os patetas que fogem, quebrar-lhes a espinha com um golpe seco. Achas que, a poucas horas do final deste mês, posso abandonar a minha indiferença? Preocupas-me. Não te devia ter pedido para seres meu cúmplice nesta noite atroz. Vai haver carne a arder, sangue a jorrar de goelas, cheiro a merda dos cobardes que pensam escapar ao destino borrando-se pelas pernas abaixo. Não há aqui lugar para poesia. Nem para qualquer tipo de triunfo.
Só consigo abraçar o caos. Só esse me reconhece mesmo sem braços. Agradam-lhe todos os que perdem, por isso, deixa-se abraçar por mim.
Não acreditas que o coração se pinte de negro? Quase te sorrio, pequeno inocente. Não vês que hoje é o fim de tudo o que conheces? Agosto acaba. Matamo-lo com prazer pois é hediondo. Mas não morre apenas ele. Não é apenas uma folha de calendário que é rasgada e atirada para o lixo. Hoje há destroços nas ruas dos prédios que caíram. Não os vês? Debaixo do betão. Espreita. Vês dedos de meninos que não irão jogar mais ao pião, pés que perderam dedos roídos pelos ratos que se aproximam. Cheira a morte. Hoje tudo morre.
De que beleza falavas?

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