quinta-feira, março 16

Acabas tu? (a caminho do final) - narrativa a meias -

Desacelero sem dares conta, ou então finges que não esperas pelo nosso diálogo a seguir... deves estar à espera de muito pouco. A surpresa dos nossos actos nunca fez sentido a não ser no cume da pirâmide do nada. Se lá chegamos é porque nos esquecemos de que existem quatro lados que fazem escala até ao beijo dos vértices. Por onde andamos a escalar? Pergunto-te arrependido pelo receio de te estar a maçar. Imagino-te a responder: que o escalar é viver, seja ao dispôr do sol ou ao encanto de um luar...e que seja como for, é demasiado semelhante à realidade dos comuns, que encontram a felicidade tão perto da culatra de uma pistola, enganados pela ilusão de que naqueles 6 lugares, moram seis pétalas das mais belas flores. imagino-te a responder coisas que não me lembro alguma vez de te ouvir a dizer. E o teu mudo rosto encostado à janela, que vagueia silêncio pelas margens de um horizonte que diz trazer o sol de volta, é apenas a tua generosidade a existir neste escuro que me pertence. Sem demora, apresso-me, por palavras atropeladas, a ti: obrigado por não me deixares sozinho neste mundo que faz tanto frio. Penso que na tua cabeça tu gostarias de me dizer que sou um verdadeiro exagerado, mas apenas te ouvi sorrir. A lua despede-se das nuvens, a humidade despede-se do nevoeiro, e tudo indica que o sol se apresentará. Preferias andar mais tempo escondida e pensei em parar o carro num túnel longo. Pensei em te colocar ao volante para de lá me puderes ver no lugar do morto. Pensei em alternativas, pensei que de nada valeriam... e disse-te: Quando o sol disser que manda, será a altura de parar de esconder. Com o sol devemos deixar expostos os nossos corpos para o mundo nos ver. Se o mundo parar, então é porque somos fabrico de vampiros. Se o mundo não mudar...

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E o mundo está em constante mutação. Muda e volta sempre ao mesmo na roda que não pára. Não te sentes um pouco tonto? Por momentos pensei estar num carrocel acelerado, mas parece-me que são recordações de uma passagem de ano à beira-rio. E que escuridão é esta? Deixemo-nos de medos e vamos abraçar o sol que nos saúda ali em frente. Acelero eu. Pé no pedal e finjo que estou a pôr chapas redondas ao som do sinal dos carrinhos-de-choque. Não tenhas receio. Eu acelero mas olho pelo espelho e faço pisca antes de ultrapassar. Perdoa-me se te sacudo da letargia mas cansei-me de estar cansada. Acelero rumo ao nada. Como sempre. É o destino que melhor conhecemos.
Sorrio no prazer do vento a entrar pela janela, na surpresa do teu rosto agora já desperto. Sei que te agrada ver a estrada a ser devorada pelos pneus. Mais um pedaço de desconhecido que é nosso.
São raros os carros que por aqui circulam. Mas nós não nos importamos de estar sós. Na verdade, nunca estamos sós. Muito menos hoje acelerando só porque podemos. E o sol acha-nos graça e gargalha à nossa passagem. Mais à frente desaparece e logo depois volta a aparecer. Joga às escondidas connosco pois sabe que somos meninos. Crianças pequenas felizes com as moedas que encontraram na carteira abandonada da mãe enquanto esta dormitava em frente à televisão, agulha de croché na mão cansada. E vamos correndo à procura de um quiosque que venda gelados. Qual o que preferes? Eu sempre gostei do perna-de-pau. Enchi-me disso quando tinha a garganta ferida e nem por isso fiquei farta.

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