quarta-feira, abril 27

Lembras-te? (II)

é manhã, vejo claramente que se fez manhã agora mesmo. Se olhasse as horas diria que pouco tempo faltava, porque sim... porque falar do tempo ao amanhecer é ganhar certeza de que tudo é medo cercado pelo que até agora deixou-se de fazer. Fecho os olhos, e sussurro em suspiro: hoje não quero pensar, não quero pensar!.. faço tempo, e nem com o tempo afirmo que estou na posição de saber se ganho ou perco seja lá o que for. E tudo o que sei é esta rua menos deserta, e pessoas como se elas fossem o mundo, e por hoje, a verdade é que um mundo pode ser só feito de pessoas. Sento-me. Olho mais uma vez... persiana percorrida, raios solares que dançam sobre as frinchas de um cortinado picotado de desenhos, e sobre o tecto... o movimento do vento que faz tudo dançar para lá dessa desconhecida janela. Fixo o olhar, estático, e todo o corpo dissolve-se aprisionado pelo silêncio das palavras que não solto e pela sensação de que mais segundo ou menos segundo algum rosto poderá espreitar. Que seja o teu, que seja o teu!.. vinco o desejo perdido num olhar. Se soubesses ler nos olhos, lias palavras que diziam o teu nome... mas o sol diz que está tudo mais claro, e que a noite se despediu para além do que conseguimos ver... e vejo claramente que se fez manhã agora mesmo. Não conto mais passos, e entro pela porta. Dizem-me, bom dia! Tenho os meus olhos a namoriscarem o chão. Estou na padaria em frente... que saberás tu de mim? Pergunto-me imaginando uma resposta que viesse de ti. Sobre a montra, e se eu espreitar abaixado, vejo que a tua janela ainda n voou. E mesmo não crendo, canto para mim... será que ainda te lembras de mim?

Sinto formigueiros nos dedos e arrepio colada ao vidro embaciado. "será possível? Terás adormecido à janela e agora a luz do sol castiga-te as pupilas?"
Tenho as mãos geladas e os pés nus. Esfrego as mãos apressada e limpo o vidro procurando o mundo. Recordo-me que havia um mundo a passar em frente, na rua. Um rapaz. Sim, havia um rapaz que olhava para a janela da minha vizinha. E era ainda noite. Madrugada.
Abro os olhos o mais que posso. "Não, não vejo. O mundo, as pessoas já não andam na minha rua. Aborreceram-se de esperar que as saudasse e foram embora".
Atento na luz da manhã que me aquece devagar as faces adormecidas. As pálpebras preguiçosas caiem num torpor feliz. Pés nus sobre o soalho. Dedo grande acariciando a madeira. Sinto-me sorrir.
E, de repente, vejo um rosto na minha memória, uma face que me sorri também no silêncio.
Estranho... Parece-me que te conheço. Assemelhas-te a um vulto que comigo dançou noutra era entre licores e
fatias de bolos. E eu podia fechar os olhos e sentir o sol enquanto nos levavas sem rumo sobre o alcatrão.
E eu corria, corria muito... Por que me parece que seguias os meus
passos enlameados?
Lembras-te?

Quando o apetite tem formas que nem mesmo ao diabo convém, lembramos sempre de uma patetice... e quando nos interrogam sobre o q desejamos, e não nos decidimos sobre nada, quais pedaços que co-existem por nada, resolvemos despachar um "decida você, aquilo que achar melhor para hoje". É assim que a madrugada me cumprimenta, como se o eu só fosse um número encaixotado numa arca de números espíritos vadios. Retomo a ti, em lembranças sem tempo datado, e dos teus cabelos apanho na memória um silêncio apertado sobre os nossos corpos deitados a contar às estrelas segredos sobre espíritos que passeiam perdidos. Lembras-te? Rumávamos pela noite e fazíamos-lhe companhia sem razão nenhuma. Será que pedir para te lembrares chega? Onde andas agora...? espreito a tua janela. Já reparaste nas plantas da tua vizinha? Há um roseiro que lança pétalas distraídas a mexerem-se com o vento. Não te parecem dizer-te olá!? Olho em frente, meninos da escola dizem à empregada que hoje é dia de barafunda, e dizem-no de sorrisos inocentes naqueles lábios frescos mergulhados pelo creme doce de ovo das bolas de berlim ainda quentes do malvado óleo que queima no calor. Lá ao longe, há um casal idoso adormecido nas células que formam os hábitos, mas gosto de pensar... que sobre hábitos que habitam sobre tantos anos que viram passar, sonhar é coisa que não se desaprende com o passar do tempo. Não tarda e olho as horas... mas hoje não quero olhar, não quero olhar! Faz agora muito vento, ouves a ventania? Devíamos escutar o que nos dizem...

"Abre os olhos!" Obedeço em sobressalto.
Já é tempo de me decidir a abandonar esta janela entreaberta. Está frio. Levantou-se um vento que rodopia e que derruba mais vasos à vizinha. Pétalas dos malmequeres no chão.
"Apressa-te!" Está na hora de me arriscar e sair... "Coragem! Sai de casa!" Ouço vozes no meu ouvido.
"Valerá a pena? Olha bem o vento que se formou..." Procuro justificações para a imobilidade que me prende os movimentos. Será medo aquilo que me paralisa?
Continuo a ouvir-te: abandona esse vidro embaciado de uma vez e vai sentir o vento na pele, nos cabelos. Mesmo que sozinha na rua. Enquanto todos se apressam por outros caminhos, de encontro a outra calçada.
Solto uma gargalhada. Decidi-me. Sairei. Assim mesmo: descalça, de pijama, cabelo revolto e olhar cansado.
Espio pela última vez a rua através do espaço que me permite a persiana. Viro costas e atravesso o chão. Daqui para lá bastam 234 passos, digo eu para mim... e até o comprovo: um, dois, três...
e pronto, apenas foram 98... ...

0 Comentários:

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

<< Página inicial