sábado, julho 28

Rascunho nº 1
(depois do armagedão)
- Final -

Subi o monte em setembro, calcei umas botas e esfreguei-me no deserto. Desapareceste-me! Gritei por ti, sabias? Ainda havia flores aqui no cimo. Não me acompanhaste, vi-te a ultrapassares para lá das nuvens. Quem te fez voar? Olhei-te até seres um ponto... não reparaste? Fui até à cidade, cansei-me do campo. Arrombei fechaduras e limpei corpos, precisava de espaço. Aproveitei o sol nos dias em que me entretinha a queimar, saudei a chuva nos dias em que me apeteceu chorar. Fiz-te uma chamada, mas deu-me interrompido. Com quem é que estarias a falar? Desliguei um ouvido, escrevi cartas remetidas ao céu, sei lá eu a morada do céu: "querido céu! Que fizeste tu de mim? Querido céu, quando é que será o meu fim?". Passei os dias sem pregar olho: "hoje eu não quero pensar", dizia em voz alta para o segredo de ninguém. Dizimámos tudo, sabias? A nação hoje existe sem pessoas. Dorme aquele que espera alguma coisa do amanhã... fizeste-me pensar que até ao amanhã eu disparei balas da metralhadora. Não dormia, pensava em ti. Subiste tão alto sem um único olhar para trás, não te perdoo! Para onde seguiram os passos do teu coração? Tu embalsamaste-o! Que raie o sol agora, que me queime a mim também!

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o vento sopra mais forte hoje. quase me parece ouvir vozes lá em baixo. devem ser ecos de um passado lá longe, bem longe. nem me recordo da última vez que ouvi a minha garganta soltar um ruído. este silêncio tornou-se parte de mim, já não nos distinguem quando passamos na rua. a verdade é que nem vamos à rua. permanecemos aqui, eu e o silêncio. hoje, no entanto, pareceu-me ouvir uma prece distante: "querido céu", seria isso que dizia? já me tinha esquecido do quão idiotas são os mortais. dirigem-se em alturas de aperto aos céus. que procuram lá? esqueci também que já fui mortal e me ajoelhei procurando uma mão que me elevasse do solo empoeirado. isso foi há tanto. antes do armagedão. corpos despedaçados por aves de rapina, ossos limpos até ao tutano. só porque assim o desejei. só porque posso.
fecho os olhos e sinto os raios de sol pousarem na minha pele. empoleiram-se nos meus seios nus e fazem-me cócegas nos ombros.
uma gargalhada. estremeço. que foi isto? pego nos farrapos no chão e cubro-me assustada. som familiar que me aterroriza. ah, pára! pára! que gargarejar é este? procuro um animal que talvez me tenha escapado. pego numa pedra e apresso-me a ressuscitar o silêncio.
gargalhada. de novo.
alucino. há tanto que não ouço um ruído.

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Disparo para tudo, hoje percorro quilómetros só para não ficar sem balas... de Espanha até à Tunísia, tenho balas de quase todas as cores. O vento sopra e faz ruído nas placas das paragens dos autocarros, ruído nas persianas das janelas onde passo, ruído atroz, zumbidos indefinidos. Onde estás? Não sei levantar a cabeça, aprendi a hipnotizar-me com o chão. Onde estás, andorinha selvagem? Há coisas que se extinguiram, e eu tento acompanhar o dicionário para riscá-las. O tempo lava até ao confim das memórias, esqueço-me do nome das coisas que um dia dizia adorar. Deixei de riscar as palavras há dias, hoje arranco as folhas. Pontapeio pianos, parto a meio as guitarras e rio-me alto, rio-me como perdido. Por vezes choro, queria tanto dizer-te isso. Por vezes dou por mim às gargalhadas, porque sei que estou assustado, estou com medo de te perder. Rio-me e estou frágil, rio-me forte, perco a razão, tenho-te a ti no coração. Onde estás??? Vou-me rindo alucinado, rindo-me de ti... em que raio pensavas para teres querido este mundo de silêncio? Vou-te encontrar um dia, sim. Deixarás crescer os teus braços, um dia? Queria tanto um abraço. Cheguei ao mar, gritei para o eco... mergulho para andar até ti. Não sei voar, mas vou a nado. Vens cá, até ao fim do mar? Vem cá. O sol também podia ser de nós os dois.

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Enervo-me. disparato contra tudo, contra todos. pena já não haver nada contra disparatar. hoje inventava toda uma civilização só para a poder deitar abaixo. é o efeito que o sol tem em mim neste momento. afasto os raios com granadas, faço buracos no chão só para me ocultar lá dentro. fugir do sol. das gargalhadas que ouço à minha volta.
escondo-me. costumava ser boa nisso. nisso e em fugir. na minha cabeça, já fugi mais de mil vezes. sempre sem destino definido. sempre sem sair do mesmo lugar.
abro mais um buraco, este não é profundo o suficiente.
daqui ainda vejo a claridade espreitar entre as pestanas, a luz deseja tocar-me na íris. afasto-a como a uma mosca bzzzbzzbzbzz, pára de me atormentar.
sinto-me fraca. aniquilei tudo e fiquei sem forças. forças para espantar os demónios que me assaltam sob a forma de raios de sol.
gargalhadas. riem-se de mim.
encolho-me no meu buraco. que falta me fazem os meus braços agora. queria tanto abraçar-me. entoo uma melodia baixinho. encho os ouvidos de terra.

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Que raie o sol dentro de ti! Desesperei eu num grito mudo, escrevi eu com a cal nas paredes e nos telhados arruinados. Escrevi ao mundo em forma de balão, pintei a tua imagem e a minha e, nos mensageiros balões das nossas vozes, escrevi um diálogo de amor. Sabes, é na garganta, onde sinto as minhas palavras a desfazerem-se no vento, que levito a ansiedade de te ver... por isso é que me rio, rio muito da minha solidão. Tentei voar, tolice a minha! Caí do monte e rebolei pelo chão. Tentei nadar, absurdo o meu! O mar ao longe brincava aos remoínhos, e as ondas nunca me deixaram ir além. Não sei sair daqui. Deve ser verão, este sol pica na minha pele escaldada. Parei para pensar. Não sou um bom amigo para ninguém, reflecti eu de mansinho. Porque hás-de tu esperar por mim? Perguntei eu aos animais. Até os animais morreram, que crueldade! Está tudo morto e não tenho respostas na ponta da língua de ninguém. O sol aumenta, até onde quer chegar? Sempre fugiste sem destino, mil vezes o fizeste sem nunca saires do mesmo sítio. Do sol não tens medo, será que até disso te esqueceste? Invento histórias para me rir bem alto, não há alma que me faça entender que estou a dizer uma mentira... rio-me alto, muito alto, devo estar louco. Mas o meu riso tu nunca esqueceste, por isso modelo-o como um quadro, por isso é que no meu recanto eu sei que existo. E volto a rir, a rir para ti.

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tremo. afinal o sol afastou-se. deixou só a sua ausência e um gelo de morte. passo a língua pelos lábios: sabem-me a sal. lágrimas na cara enterreada.
Quanto tempo passou e onde estou afinal?
Queria dizer adeus, despedir-me daqueles que me são queridos. a lua ilumina a metade a noite. está como eu. sozinha numa escuridão muda.
olho ao longe. tento ver. não se vê nada, nada se ouve. nunca a morte pareceu tão real.
procuro os meus braços. há tanta dor neste mundo e nada para abraçar. estes cotos nada abraçam.
saudades das minhas mãos a agarrarem o nada, a vê-lo escorrer como areia na praia. dos meus braços a quererem voar.
fecho os olhos e procuro lembrar-me do toque dos meus dedos. a minha pele parecia suave.
ando, avanço às cegas. o mais certo é cair num dos buracos que para mim mesma abri. sozinha, neste pós-armagedão, quem me abrirá sepultura? ainda haverá aves para me arrancar as órbitas? bichos para me morder as vísceras apodrecidas?
deve-se sempre guardar o coveiro. alguém tem de ficar para limpar a merda.
gargalhada. ah. outra. sinto um sorriso elevar-me as bochechas. coisa estranha.
de onde vêm estes risos, inusitada generosidade nesta noite esquecida por deus?
os risos parecem-me perto. agora não me assustam. trazem um bafo quente. faz-me cócegas no nariz.
ahahahahhahahahahahahhahhhahahahhahaa hhahahahahahahhahahahahha ahahahahahahahahh ihihihhehehehehehehehehehhhehehehehhehehee deve-se sempre guardar o coveiro.
Ri comigo, estranho. vamos rir que sempre nos vai aquecendo a alma gelada.

(narrativa a meias - 1ª parte: ileee; 2ª: S.)

7 Comentários:

Às 2:22 da tarde , Anonymous Anónimo disse...

afinal só li hoje de manhã!com solzinho e tudo :)

continua delicioso.
não pares!não parem!

beijinho*

 
Às 7:12 da tarde , Blogger Mariana disse...

Tenho-me apaixonado pelas vossas histórias a meias. Encaixam muito bem um no outro.
Fico à espera de mais...

 
Às 11:29 da manhã , Blogger S. disse...

: )

 
Às 3:06 da manhã , Anonymous Anónimo disse...

hoje ainda é noite.ou ainda não é manhã.
e soube bem.como um chá.ou um chuveiro quente.ou um pijama lavado.ou isso tudo junto.

sweet nothing, i'm in love with you

obrigada*

 
Às 10:47 da manhã , Blogger S. disse...

a narrativa hoje chegou ao fim. obrigada pelas palavras simpáticas : )

 
Às 3:26 da tarde , Anonymous Anónimo disse...

Estás de parabéns! Agradeço-te o convívio, e a tua atenção para comigo. Feliz aniversário, minha amiga!

Que belo final!

ileee

 
Às 1:45 da tarde , Blogger S. disse...

; )

**

 

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